Eduardo Pitta, poema de Archote Glaciar, 1988, in Desobediência, 2011

Eu vi o tédio atravessar o tempo
atribulado da infância
e espelhar-se naquele rosto

ainda de menino. A cicuta,
o medo, tanto desamor
submerso na água de olhar.

Não tem memória. É de outros
a vontade, o apelo, a boca
acesa ao interdito. Vertigem

alguma o perturba. Mãos rudes
fixam-lhe o perímetro da pele,
secreto desígnio.

Imobiliza-se lentamente na claridade
líquida da cidade
e fosforesce em contraluz.

 

Eduardo Pitta, trecho do conto Inês, in Devastação, 2021

Inês está cercada. A escola do filho come dois terços do salário do marido. Aguenta porque o imobiliário classe AA+ passa incólume à derrocada. Cinco milhões de euros? Seis? Who cares? Os de Angola trazem o dinheiro em sacos tartan-cíclame do Roque Santeiro. Os de São Petersburgo e Novgorod tomam cautelas de offshore. Inês jurou que não voltava às punhetas de bacalhau. Venham mais ovimbundos e capos da Orekhovskaya pois com Braganças e aparentados é pura perda de tempo.

E não é que um Chipenda com um diamante incrustado no incisivo lhe comprou um duplex para uma manicure ruiva da Quinta do Bau‑Bau? A mulher transferiu‑se da Sobreda para o Parque das Nações rodeada de tanta coreografia que provocou uma reunião urgente da comissão de condóminos.