JOSÉ SARAMAGO (1922-2022) - CENTENÁRIO

Se 1922 é hoje celebrado como um ano extremamente agitado nos meios culturais brasileiros, em virtude da realização da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, é certo afirmar que ele também é lembrado por outras efemérides.

Nascido na Vila de Azinhaga e depois transferindo-se para a cidade de Lisboa, José Saramago estreou na literatura com o romance Terra do pecado (1947), aos 25 anos, e desenvolveu um percurso literário multifacetado, com obras nos mais diferentes gêneros textuais, como poesia, crônicas, contos, romances, peças de teatro, libreto de ópera, textos de opinião e literatura infanto-juvenil.

É autor de obras emblemáticas, tais como Levantado do Chão (1980), Memorial do convento (1981), O ano da morte de Ricardo Reis (1984), O evangelho segundo Jesus Cristo (1991), A caverna (2000) e A viagem do elefante (2008), dentre outros. Alguns de seus romances, inclusive, foram adaptados para o cinema, ganhando uma repercussão para além das fronteiras escritas, como são os casos de A jangada de pedra (1986 – filme homônimo de 2008, dirigido por George Sluizer), Ensaio sobre a cegueira (1995 – Cegueira, película de 2008, dirigida pelo brasileiro Fernando Meirelles) e O homem duplicado (2002 – filme homônimo de 2013 sob direção de Denis Villeneuve).

Sua fortuna crítica inclui ao mais diversos nomes oriundos de Portugal, Brasil, Espanha, Argentina, Itália, Estados Unidos, Grã-Bretanha, Alemanha, dentro outros espaços que seus leitores conhecem bem, do mesmo modo como seus títulos encontram-se traduzidos em mais de 40 idiomas. Trata-se de um dos autores de língua portuguesa mais estudado e sobre quem a academia vem produzindo uma quantidade monumental de artigos, ensaios, dissertações de mestrado, teses de doutorado, livros e capítulos de livros.

Exatamente em 07 de dezembro de 1998, há 24 anos, José Saramago recebia na Academia Sueca o Prêmio Nobel de Literatura, uma das mais importantes distinções mundiais, tornando-se o único escritor de língua portuguesa, até o momento, com tal galardão. No discurso proferido nessa data, em Estocolmo, o autor de In nomine dei explica as suas origens humildes e o seu processo de criação ficcional. Na sua conclusão, Saramago faz questão de reiterar a sua condição de aprendiz diante da arte (e, por que não dizer, diante da própria vida?) e se pronuncia da seguinte forma:

"Depois, o aprendiz, como se tentasse exorcizar os monstros engendrados pela cegueira da razão, pôs-se a escrever a mais simples de todas as histórias: uma pessoa que vai à procura de outra pessoa apenas porque compreendeu que a vida não tem nada mais importante que pedir a um ser humano. O livro chama-se Todos os Nomes. Não escritos, todos os nossos nomes estão lá. Os nomes dos vivos e os nomes dos mortos. Termino. A voz que leu estas páginas quis ser o eco das vozes conjuntas das minhas personagens. Não tenho, a bem dizer, mais voz que a voz que elas tiverem. Perdoai-me se vos pareceu pouco isto que para mim é tudo" (SARAMAGO, 1998, p. 12).

Nesse texto, as marcas do exercício da recordação (e não poderia ser outra a expressão que melhor o caracteriza, afinal "res" = coisa e "cordis" = coração, ou seja, coisas que estão guardadas no coração e só ali poderiam permanecer) ficam nítidas, posto que são expressas com uma verve carinhosa e sensível.

Todos nós, quando encontramos um(a) escritor(a), guardamos dele(a) algum tipo de memória ou mesmo de recordação. No meu caso pessoal, tenho de José Saramago duas imagens muito diferentes, mas que demonstram o percurso cheio de sucesso do escritor português.

Se não me falha a memória, era 1988 ou 1989, na Faculdade de Letras da UFRJ, José Saramago sentado numa cadeira no Setor de Literatura Portuguesa, do Departamento de Letras Vernáculas, tomando um cafezinho e conversando muito atentamente com professores e alunos, dentre eles Teresa Cristina Cerdeira (a primeira pesquisadora a publicar em Portugal um trabalho sobre a sua obra, resultado de sua Tese de Doutorado, defendida na UFRJ, na mesma época), Jorge Fernandes da Silveira, Gilda Santos, Simone Pinto de Oliveira, Luci Ruas e Monica Figueiredo. Claro. Isso foi num tempo muito antes do Prêmio Nobel. Já em 2000, dois anos após a premiação, o lançamento no Brasil do romance A caverna teve de ser feito no Museu Histórico Nacional, na Praça XV (RJ), por causa da quantidade de pessoas presentes. Ele não pode autografar, mas assinou pacientemente algumas centenas de exemplares. A fila era gigantesca, e lá estava eu com Teresa Cristina Cerdeira. Apesar da espera e do cansaço, valeu a pena. Tenho hoje guardado duas relíquias: a primeira edição brasileira de A caverna e O evangelho segundo Jesus Cristo, meu romance preferido.

Homem do seu tempo, com um espírito inquieto e inquietante, sempre preocupado com questões sociais, econômicas, políticas e ecológicas, dentre outras, José Saramago constitui um nome paradigmático não apenas na literatura portuguesa, mas nas literaturas de língua portuguesa.

No ano, portanto, em que comemoramos a importante efeméride do Centenário de Nascimento de seu nascimento (1922-2022), a Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa (ABRAPLIP) felicita a Fundação José Saramago, bem como todos os seus familiares e, em especial, a Dra. Pilar del Río, sua esposa e incansável divulgadora do seu legado.

Num dos textos escritos originalmente para o Blog, e inserido posteriormente em O caderno (2009), ao falar do escritor brasileiro Jorge Amado, Saramago não esconde a sua admiração e destaca uma série de qualidades do autor de Tendas dos milagres. Ao encerrar, declara: "Diz-se que pelo dedo se conhece o gigante. Aí está, pois, o dedo do gigante, o dedo de Jorge Amado" (SARAMAGO, 2009, p. 63).

Ora, se olharmos a trajetória de José Saramago e entrarmos nos seus múltiplos universos criados, não é exatamente essa a mesma imagem que temos? Concluo, enfim, parafraseando o autor: "Aí está, pois, o dedo do gigante, o dedo de José Saramago".

São Carlos, SP, 07 de dezembro de 2022.

Prof. Dr. Jorge Vicente Valentim
Presidente da ABRAPLIP – Gestão 2022-2023

Referências:

SARAMAGO, José. De como a personagem foi mestre e o autor seu aprendiz, 1998. Disponível em: https://www.josesaramago.org/wp-content/uploads/2021/06/discursos_estocolmo_portugues.pdf Acesso em 05/12/2022.

______. O caderno. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

11º Colóquio do PPLB - Polo de Pesquisas Luso-Brasileiras

MEMÓRIA / ABRAPLIP

AGUSTINA BESSA-LUÍS (1922-2019)

[Fotos de Agustina Bessa-Luís, na Exposição a ela dedicada no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, de dezembro de 2014 a março de 2015.]

Há exatamente 100 anos, em 15 de outubro de 1922, nascia em Amarante, Agustina Bessa-Luís, nome literário de Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa, oriunda de uma tradicional família portuguesa, da região rural de Entre Douro e Minho.

Dona de uma obra hercúlea e multifacetada, abrangendo crônica, conto, novela, romance, teatro, literatura infanto-juvenil, ensaios, textos de intervenção, biografias, diário, dentre outras categorias, Agustina notabilizou-se por uma escrita original, arrojada e poliédrica, tendo sido consagrada com diversos prêmios, dentre eles o Prêmio Camões, em 2004.

Estudada e profundamente apreciada por nomes mais diversos da crítica literária mundial, sua obra foi e tem sido o foco de investigações e estudos de ensaístas dos mais distintos espaços acadêmicos, como Eduardo Lourenço, Álvaro Manuel Machado, Catherine Dumas, Eduardo Prado Coelho, Joaquim Manuel Magalhães, Maria Alzira Seixo, Laura Fernanda Bulger, Silvina Rodrigues Lopes, Isabel Pires de Lima, Isabel Vaz Ponce de Leão, Maria do Carmo Mendes, Maria Lúcia Dal Farra, Dalva Calvão, Alda Maria Lentina, Renata Soares Junqueira, Tatiana Alves Soares, Paulo Motta, Patrícia Cardoso, Viviane Vasconcelos, Rodrigo Valverde Denubila e, mais recentemente, Rodolfo Pereira Passos.

Dentre nós, leitores brasileiros, sua obra tem sido alvo de artigos, ensaios, capítulos de livros, livros integrais, dissertações de mestrado, teses de doutorado, projetos de pós-doutorado, além de pesquisas em nível de Iniciação Científica e de Trabalhos de Conclusão de Curso. Em 2022, ano do Centenário de Nascimento da autora, presenciamos, na UNESP/FCLAr, a defesa da primeira tese acadêmica de doutorado sobre o teatro integral de Agustina Bessa-Luís, intitulada O avesso do diálogo ou a insolúvel incomunicabilidade do amor: o teatro de Agustina Bessa-Luís, de autoria de Rodolfo Pereira Passos.

No elenco de pesquisadores e professores brasileiros que tem se dedicado ao estudo, ao ensino e à investigação da obra agustiniana, é preciso fazer dois destaques. Em primeiro lugar, não podemos deixar de recordar e de celebrar o trabalho pioneiríssimo da Profa. Dra. Simone Pinto Monteiro de Oliveira. Sua dissertação de mestrado (A Sibila, uma narrativa em ritmo de rocking-chair) e sua tese de doutorado (O estatuto do narrador na ficção de Agustina Bessa-Luís), orientadas pela Profa. Dra. Cleonice Berardinelli e defendidas respectivamente em 1972 e 1978, constituem referências incontornáveis sobre a produção literária da escritora portuguesa.

Aliás, graças à sua dedicação ao ensino da literatura portuguesa, durante décadas na Faculdade de Letras da UFRJ, outro(a)s leitore(a)s foram formado(a)s e sua paixão pela obra da autora reverbera ainda hoje no(a)s investigadore(a)s e professore(a)s mais jovens. Falar de Agustina Bessa-Luís no Brasil é, certamente, evocar com justeza o nome da Profa. Simone como uma das suas mais assertivas defensoras e leitoras.

Mas também, não podemos nos esquecer, numa geração posterior à da Profa. Simone, da presença de outra grande figura tutelar no tocante aos estudos agustinianos no Brasil. Em 2000, orientada pelo saudoso Prof. Dr. Hakira Osakabe, a Profa. Dra. Anamaria Filizola defendeu a sua tese de doutorado sobre um aspecto particular da autora homenageada (O cisco e a ostra: Agustina Bessa-Luís, biógrafa), constituindo-se outro título incontornável dentro da fortuna crítica agostiniana. Como a docente da UFRJ, a Profa. Anamaria também deixou um potente grupo de trabalho na UFPR, depois de anos dedicados ao magistério da literatura portuguesa, no Estado do Paraná.

Esses dois casos são apenas dois exemplos muito significativos de como a autora de A Sibila é querida e como possui um grupo muito fiel de leitores, mostrando um vigor que ultrapassa as barreiras temporais do século XX e vem ainda nos ensinar muitas coisas no XXI.

Celebrar o seu centenário é, portanto, manter a memória cultural de sua obra e de sua voz. A Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa (ABRAPLIP) saúda a família da escritora, bem como o Círculo Literário Agustina Bessa-Luís, desejando intensas festividades em torno da efeméride.

Ao mesmo tempo, hoje, 15 de outubro, dia dos professores, a ABRAPLIP saúda todo(a)s o(a)s docentes pelo trabalho incansável no exercício do magistério nas mais diferentes esferas acadêmicas e educacionais. Sabemos que as lutas são diárias e imensas, mas que a esperança nos alimente para continuar o nosso ofício.

Por fim, para a presente comemoração, deixamos duas contribuições afetivas em torno da figura da autora e de seu legado. A crônica "Sempre, sempre, sempre", enviada pela escritora e artista plástica Mónica Baldaque, e um trecho da obra As estações da vida (2002), lido pelo poeta Rui de Noronha Ozório. A eles, agradecemos com carinho a generosidade em comemorar conosco a memória de Agustina Bessa-Luís.

São Carlos, SP, 15 de outubro de 2022.

Jorge Vicente Valentim
Presidente da ABRAPLIP – Gestão 2022-2023.

DIÁLOGOS DE POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA - 17º ENCONTRO DE PESQUISADORES

IX UM DIA DE CAMÕES - CHAMADA DE COMUNICAÇÕES

450 anos de Os Lusíadas - 7 a 9 de novembro de 2022

Neste ano em que se comemoram os 450 anos da publicação d' Os Lusíadas, o tradicional evento da Universidade Federal Fluminense (UFF), "Um dia de Camões", em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade de São Paulo (USP - Grupo de pesquisa Reescrever o século XVI - CNPq), e o Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos (CIEC), sediado na Universidade de Coimbra, realizar-se-á entre os dias 7 e 9 de novembro com a participação especial do Música Antiga da UFF.

Será a nona edição do evento, que se realiza novamente após os dois anos em que a universidade se via diretamente prejudicada, especialmente em seu convívio, pela pandemia da Covid-19. Pela primeira vez, o colóquio ganhará outros dias de debate e reflexão e contará com diversas participações internacionais, sendo, portanto, a mais diversa e ambiciosa edição desse encontro tão singular.

O encontro será em caráter plenamente presencial, com a hipótese de haver poucas apresentações de convidados feitas remotamente, o que não se aplica às comunicaçóes. Assim, chamamos todas as vozes amantes de Camões e da poesia em geral a apresencarem suas propostas de comunicação.

As propostas, com até 800 caracteres, devem ser enviadas até o dia 21 de outubro para o e-mail umdiadecamoes@gmail.com

ANA LUÍSA AMARAL

Foi com surpresa e consternação que recebemos hoje, dia 06 de agosto de 2022, a notícia do falecimento da professora e investigadora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Ana Luísa Amaral. Poeta, ficcionista, ensaísta e tradutora, sua produção literária, que conta ainda com incursões pelo teatro e pela literatura infanto-juvenil, constitui uma das mais expressivas e paradigmáticas da literatura portuguesa contemporânea, reconhecida, inclusive, pelos seus pares, com prêmios e condecorações importantes nos cenários nacional e internacional, tais como: o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, com o livro Entre dois rios e outras noites (2008); o Prémio PEN de Narrativa da Associação Portuguesa de Escritores, com o romance Ara (2014); a Medalha de Mérito – Grau Ouro da Câmara Municipal do Porto (2016); o Premio Internazionale Fondazione Roma: Ritratti di Poesia (2018); o Prémio de Ensaio Jacinto do Prado Coelho, da Associação Portuguesa de Críticos Literários (2018), com Arder a palavra e outros incêndios (2018); o Prémio Livro do Ano de Poesia do Grémio de Librerias de Madrid, por What's in a Name (2020); o Prémio Vergílio Ferreira, atribuído pela Universidade de Évora (2021); o XXX Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana (2021); e, mais recentemente, em 2022, a Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega nomeou Ana Luísa Amaral como Escritora Galega Universal. Apenas para citar alguns dos reconhecimentos mais relevantes.

Ana Luísa Amaral foi sempre uma presença constante nos eventos promovidos pela ABRAPLIP. Basta lembrar, a título de exemplo, a sua memorável conferência de encerramento no XXII Congresso Internacional da ABRAPLIP, na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 2007. Como figura fomentadora da cultura, organizou e promoveu uma série de eventos em comemorações a figuras igualmente importantes do cenário da literatura e da cultura portuguesas, como "Saber de mim, sabendo das coisas": homenagem aos 80 anos de Maria Velho da Costa. Aliás, foi pelas suas mãos que eu próprio, já afastado da ficção da autora de Myra, retomei a leitura de O lugar comum (1966) e pude participar do referido evento, na cidade do Porto, em 2018.

Conheci a sua poesia a partir das conversas com o professor Mário César Lugarinho, amigo pessoal da escritora e grande incentivador na divulgação de sua obra. Graças a ele, tive a oportunidade de conhecer pessoalmente Ana Luísa Amaral, em 2013, num jantar muito acolhedor e carregado de simpatia e carinho. A foto em destaque registra esse momento.

É, pois, essa imagem que eu guardo dessa grande artista e mulher. Serena, descontraída, elegante, mas sempre atenta e incisiva na expressão de suas ideias e de sua forma de pensar e sentir.

A Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa (ABRAPLIP) transmite os sinceros sentimentos aos familiares, amigo(a)s, aluno(a)s, ex-aluno(a)s e orientando(a)s, com um abraço fraterno e comovido.

Que a sua coragem, o seu destemor, a sua dignidade e o seu exemplo, tantas vezes estampados nos seus versos, continuem a iluminar e a inspirar os caminhos do(a)s seus/suas leitore(a)s.

"A Carta"
Senhores:
hão de a dor e a ausência ter sabor,
um certo cheiro doce e demorado,
em forma de mil olhos

Pois vós olhastes essa minha ausência,
dissestes que dali criei palavras,
mas não por minha mão

Na vossa história, senhores,
eu fui só voz,
em vez de gente inteira

Inteira, nunca o fui,
dobrada ao meio pelo escuro das vestes,
pelas juras forçadas que cumpri,
pelo dever que me ditou meu pai

Porém, fui eu que as fiz, às letras dessas cartas,
eu, que as fui construindo devagar,
na escuridão da cela

O resto foi roubado por vós
e noutra língua,
e em mitos que vos eram
necessários

Não fui só voz:
fui eu, dona de mim,
porque as letras me foram, e o amor,
e o ódio vagaroso

Só para isso me valeu viver,
para compor, igual a sinfonia,
tudo o que considerei

Ele foi só palavras que em palavras forjei,
bigorna onde moldei espadas e lanças,
o lume necessário

Só não moldei
as grades da prisão onde vivi:
essas, moldastes vós
até incandescência

Mas eu, nas letras que compus,
eu inventei a ausência como mais ninguém.
Eu fui a mão da ausência
numa cela escura

E os atos dele foram-me as metáforas,
imagens a seguir-me, mais fortes
do que a vida.
Por isso me chamastes, senhores,
no vosso tempo, uma palavra nova e ágil:
literatura

E assim eu fui-vos voz,
e doce mito. E nada mais
vos fui

Quero dizer-vos hoje,
neste tempo tão escuro,
mas de um escuro diverso do que tive:
adeus

Deixai-me o escuro, o meu.
Porque ao lado da minha,
a vossa ausência, essa que em mim plantastes,
nada é.
Tomáreis vós saber o que é ausência

Ausência: eu: demorada nestas linhas.
Dizer com quanto escuro
a noite se desfaz
e se constrói –
[AMARAL, Ana Luísa. Escuro. São Paulo: Iluminuras, 2015, p. 47-48.]

Jorge Vicente Valentim
Presidente da ABRAPLIP (Gestão 2022-2023)

MARIA LUIZA RITZEL REMÉDIOS

Foto: João Antônio Ritzel Remédios

Em maio de 2022, completaram-se dez anos de partida da Profa. Dra. Maria Luiza Ritzel Remédios, cujo nome está irremediavelmente ligado à história da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa. Tendo sido sua Presidente na década de 1980 e Vice-Presidente, na gestão de 2000-2001, a sua presença em termos de liderança e de fomento à pesquisa e ao ensino da literatura portuguesa no Brasil permaneceu constante ao longo dos anos seguintes, num percurso marcado pela formação de professores da área, pela produção bibliográfica de farto material de estudo e pela organização e participação em eventos nacionais e internacionais. Docente da Universidade Federal de Santa Maria e da PUC-Rio Grande do Sul, deixou uma série de estudos, artigos, ensaios e livros voltados a autore(a)s portuguese(a)s dos mais diversos estilos e épocas, com uma especial atenção aos do século XX. Aliás, sobre este(a)s, uma das suas obras mais citadas é exatamente O romance português contemporâneo (Santa Maria: Edições UFSM, 1986).

Dona de um sorriso largo e acolhedor, de uma voz segura e firme, Maria Luiza protagonizou algumas das cenas mais marcantes, seja no campo profissional, seja no pessoal. Não tive a oportunidade de conviver de forma próxima à mestra aqui rememorada, mas pude presenciar um dos momentos mais deliciosos com ela, num dos finais de tarde, em Santiago de Compostela, em 2005, por ocasião do Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas na universidade daquela cidade espanhola.

Estavam ela, Dona Cleonice Berardinelli e Maria Lúcia Dal Farra, sentadas num banco próximo à mesa central, numa calorosa conversa. A princípio, para os que passavam à procura de um lugar vago, tratava-se de um encontro entre três colegas da área. No entanto, Dona Cléo começa a falar sobre os seus gostos musicais e Maria Lúcia descreve as suas óperas favoritas e suas intérpretes. Maria Luiza interpela que, apesar da Callas, da Tebaldi e da Norman, se elas três fossem cantoras certamente colocariam todas as divas em maus lençóis, porque não haveria uma ópera que elas não cantassem. Quem ouvia a conversa não deixou de se manifestar com um sorriso afirmativo. E, para não deixar dúvidas, as três começaram a cantarolar árias da Carmen, de Bizet; de Romeu e Julieta, de Gounod, além de alguns trechos de canções de Fauré e Debussy. Posso afirmar que foi algo absolutamente mágico e encantador. Como eu, muitos que ali estavam puderam presenciar três das grandes referências da área num momento de puro encanto, de alegria, de partilha e de amizade.

Assim, num gesto de justa reverência à inesquecível mestra e à grande mulher que foi, a ABRAPLIP presta uma homenagem aos 10 anos de ausência da Profa. Dra. Maria Luíza Ritzel Remédios e a memória incontornável de sua presença entre nós. Como presidente da Associação na gestão 2022-2023, tomei a liberdade de convidar algumas ex-alunas, ex-orientandas e amigas a deixarem um breve relato de suas recordações da professora. A elas, o meu mais sincero agradecimento. Que o sorriso acolhedor e o exemplo profissional e pessoal da querida professora sejam uma energia motivadora para os que permanecem e continuam o trabalho de divulgação, de ensino e de pesquisa da literatura portuguesa no Brasil. Bem haja!

Prof. Dr. Jorge Vicente Valentim (UFSCar - Presidente da ABRAPLIP/Gestão 2022-2023)

"Algumas memórias de Maria Luíza" - Simone Pereira Schmidt (Professora Titular/UFSC)

Maria Luíza Remédios cruzou meu caminho para minha grande sorte. Ou fui eu que cruzei o seu, para minha sorte também. O certo é que nos encontramos em 1992, e que encontro foi esse! Quisera eu que a vida nos desse assim, de presente, mais encontros de tamanha intensidade. Eu estava, então, decidindo o que fazer no Doutorado, e encontrei a pessoa que me abriria todos os caminhos, que me conduziria de volta à universidade após os tortuosos desencontros do mestrado, que me daria, como horizonte aberto, fascinante e infinito, a literatura portuguesa.

Ela me acolheu, me apresentou autores, aceitou meu feminismo e foi aberta o suficiente para me incentivar a seguir em frente nesta área de pesquisa, a teoria feminista, à qual eu já me sentia vinculada, mas que era ainda pouco conhecida na academia brasileira. Mesmo assim, ela aceitou minhas escolhas, foi animada e solidária. Junto com Regina Zilberman e Maria da Glória Bordini, construiu uma parceria indestrutível, que formou gerações de mestres e doutores e deixou sua marca indelével na pesquisa brasileira. Tive a honra de pertencer a uma geração formada por essas mulheres, minhas grandes mestras.

Quando me inscrevi para o concurso para professora de Literatura Portuguesa na UFSC, quase desisti por não conseguir me imaginar construindo naquele momento um ensaio de fôlego para apresentar à comissão avaliadora. Foi Maria Luíza que calmamente leu um ensaio que eu acabara de escrever, sobre Saramago, e que me disse, com aquele entusiasmo que sempre a acompanhou, que eu tinha já um trabalho pronto e apresentável para o concurso. Posso dizer que, sem seu apoio e encorajamento, talvez eu não tivesse feito a carreira docente que fiz. E posso dizer sem errar que ela foi um grande modelo. Quando ministrei minhas aulas, quando escrevi e apresentei trabalhos em congressos, simpósios, grupos de trabalho, Maria Luíza estava lá, no fundo da minha maneira de me mostrar aos outros. E isso porque ela foi meu exemplo de generosidade intelectual e afetiva, com aquele seu jeito alegre de acolher e respeitar, de reunir seus orientandos numa verdadeira e fraterna comunidade de saberes compartilhados. E como orientadora foi bem mais do que apenas uma orientadora: foi uma figura acadêmica de grande sabedoria e segurança, aquela que buscou leitores e interlocutores de qualidade para o meu trabalho, a amiga que me apoiou nos momentos de insegurança, que segurou minha filha recém-nascida em seus braços, pelos corredores da PUC, enquanto eu tremia de medo e emoção nos momentos decisivos da minha tese. Maria Luíza foi isso e muito mais. Compartilhamos bancas, mesas redondas, ideias, propostas, debates, jantares, cafés, conversas, risadas. Uma amiga querida, uma intelectual única, que impulsionou a vida e a carreira de muitos como eu, que iniciaram por sua mão segura as suas trajetórias acadêmicas.

Em 2012, desejei muito participar do seminário que ela organizou na PUC-RS, e para o qual me convidou. Ela de algum modo sabia que era nossa despedida, e como ela, eu também o intuía, mas minha saúde precária naquele momento me impediu de comparecer. Quando soube de sua morte, pouco tempo depois, sofri em silêncio, e sozinha, a sua perda. Maria Luíza se foi cedo, e pessoas fundamentais como ela não deviam nos deixar tão cedo. No entanto, para meu consolo, até hoje me alimento da memória de tudo que ela me deu, e me aconchego no carinho e no brilho de sua companhia.

"Maria Luiza e a suprema dádiva da Humanidade" - Cátia Monteiro Wankler (Professora Titular/UFRR)

Maria Luiza Ritzel Remédios foi minha orientadora de doutorado, na PUCRS, de março de 1998 a janeiro de 2002. Eu a conhecia a partir da leitura da sua produção acadêmica, e ser orientada por ela foi um projeto que foi se configurando em função da competência e da delicadeza de seus escritos, sem falar em sua vivência acadêmica como professora da Universidade de Santa Maria, depois, da PUCRS. Confesso que me fascinou também o fato de ela conhecer Roraima, meu Lugar de migrante carioca, onde esteve no início da década de 1970, em atividades no Campus Avançado da UFSM.

Ser aluna e orientanda de Maria Luiza, a nossa "Malu", foi uma honra e um privilégio, uma experiência que me ensinou muito, tanto como profissional, quanto como pessoa. Por isso, proponho-me, aqui, a falar, de forma muito pessoal, um pouco sobre o que aprendi com essa professora que foi merecedora de tantas homenagens prestadas em vida e in memorian.

Ela tinha um olhar brando, embora perscrutador: parecia que vasculhava a nossa alma e os nossos pensamentos, mas, ao mesmo tempo, nos dizia que estava tudo bem, que não nos faria mal, falava com os olhos. Ela tinha também um jeito todo próprio de apontar minhas falhas sem que eu me sentisse falha, e sabia exatamente como e quando falar das minhas qualidades e defeitos. Com ela, aprendi um pouco mais sobre o que era orientar com elegância.

Graças ao seu jeito brando, Malu tinha fama de "mãezona": será? Talvez, mas como orientanda, fui desafiada por ela cotidianamente durante aqueles quase quatro anos. Nossa! Foram tantas as tarefas que ela me delegou e que eu me achava incapaz de cumprir, ficava insegura, nervosa. Mas, no momento exato, ela dizia, com aquele sotaque gaúcho que eu adorava: "se tu não desses conta, eu não te mandava fazer!". Quantas vezes essa fala me ajudou a enfrentar desafios. Com ela, aprendi um pouco mais sobre motivação e autossuperação.

Várias vezes eu "surtei" porque minha orientadora não estipulava prazos para que eu cumprisse as minhas tarefas. Ela não me cobrava!!! Aflita, eu fazia um cronograma mensal de atividades e apresentava a ela, que dizia que se eu havia feito o cronograma era porque sabia o que tinha que fazer e quando deveria entregar, então, ela não precisava dele. Ela me dizia que a responsabilidade com os prazos e a qualidade do trabalho faziam parte do aprendizado de uma doutoranda. Com ela, aprendi um pouco mais sobre confiança e compromisso.

Cada parte da tese que entregava a ela era uma angústia para mim, ficava ansiosa para saber o que ela havia achado. Enquanto ela lia e avaliava, na minha insegurança, relia e reescrevia várias coisas. Ela ficava brava comigo porque lia um texto e quando me entregaria sua revisão, eu já aparecia com uma nova versão dele, e ela me dizia para só entregar a ela novamente quando eu estivesse satisfeita com o que escrevi. Aos poucos, passei a conseguir fazer isso e a esperar por ela, pelo que ela diria. Com ela, aprendi um pouco mais sobre humildade e autoconfiança.

Em sala de aula, via Maria Luiza dar voz a@s alun@s, provocar, lançar "chaves" que abrissem nossas mentes para o questionamento, que nos despertassem para a necessidade da pesquisa paralela à leitura de um texto, para a discussão de qualquer assunto e que o ponto de vista de ninguém poderia se sobrepor aos dos demais, e daí a importância de ouvir, de debater, de se despir de estereótipos, de preconceitos, antes de entrar na sala de aula. Com ela, aprendi um pouco mais sobre a liberdade de pensamento e o diálogo.

No início do meu segundo ano de doutorado, passei por um momento muito difícil, vivi um drama pessoal que me abalou imensamente por mais de um ano. Durante esse tempo, nunca percebi na Malu a menor sombra de falta de confiança nas minhas decisões. Quando eu disse que não queria tirar a licença a que tinha direito, ela não perguntou uma segunda vez, limitou-se a dizer "então, vamos trabalhar!", mas deixou sempre muito claro que eu poderia parar a qualquer momento que precisasse e que me apoiaria em qualquer circunstância, como orientadora, como professora e como pessoa. Com ela, aprendi um pouco mais sobre solidariedade e empatia.

Sou professora da Universidade Federal de Roraima e, em 2007, Maria Luiza veio à UFRR, a convite, para dar uma palestra em um seminário voltado para ajudar o nosso curso a pensar em uma proposta de criação de um mestrado em Letras. Foram dias maravilhosos, produtivos ao extremo e ela conquistou todos em todos os lugares por onde passou. No ano seguinte, aprovamos a proposta e ela ficou tão genuinamente feliz! Ela estava feliz pela nossa conquista e por ter contribuído de alguma forma, porque ela gostava de ajudar. Com ela, aprendi um pouco mais sobre doação e afeto.

Quando fiquei sabendo da partida da Malu para o outro plano, senti um vazio enorme e passei dias tendo recordações que "rodavam" na minha cabeça como um filme. Eram nossos encontros, nossas conversas telefônicas, os momentos em sala de aula, nos eventos científicos, nossos almoços e cafés juntas. Tive um filho em 2008 e uma filha em 2011, a quem ela chamava "meus netos", mesmo sem conhecê-los pessoalmente, e, depois que ela se foi, ecoava em mim, sem parar, algo que ela disse na última conversa que tivemos antes de seu desencarne: "preciso conhecer meus netos". Pois é, não deu tempo...

Como toda boa professora, Maria Luiza Ritzel Remédios não morre de fato, ela é perpetuada através do que escreveu e publicou, do que falou pelas salas de aula e auditórios da vida e d@s alun@s que formou e d@s alun@s dest@s alun@s, numa ciranda eterna em que o mote é a suprema dádiva da Humanidade, que ela praticou como poucos.

"À Tia Mana, com carinho" - Cinthia Acosta Kütter (Professora Adjunta/UFRA)

Recorri à lembrança mais concreta que me vem a mente, por volta dos 5 anos (talvez 6?) de chegar na fria Santa Maria, no coração do Rio Grande do Sul, de férias na casa da minha madrinha, Rosinha, e encontrarmos sua irmã. Para muitos, ela era Maria Luiza Ritzel Remédios, mas, para mim, ela era a Tia Mana. Uma figura que, aos meus olhos de menina do interior, se apresentava como um misto de fortaleza e doçura que me recebia com um sonoro: "Olá guriazinha?!"

A guriazinha cresceu e quando foi aprovada no curso de Letras (Português-Francês), alguém disse: "O mesmo curso da Tia!", eu apenas sorri. Porque aquela doutora que eu admirava, em um tempo que muito pouco se falava sobre titulações acadêmicas, servia como um farol, distante a me guiar... Talvez, nem ela tenha tido tempo de saber o quanto me inspirava.

Os anos se passaram e, no final de 2006, liguei para ela perguntando se podia me indicar um modelo de projeto de mestrado, pois meu marido havia sido aprovado no doutorado na UFF e nos mudaríamos para Niterói. Ela prontamente me perguntou: "O que vais pesquisar?" Expliquei que ainda não tinha certeza, mas pensava em pesquisar algo dentro da área das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. Ela me respondeu: "Quando podes vir a Porto Alegre? Vem que eu te ajudo com o projeto." Assim era a Tia Mana, a Malu ou a Dra. Maria Luiza, cujo verbo ajudar era conjugado com o coração.

Lembro com saudades do nosso último encontro em abril de 2012, semanas antes dela encantar-se. Ela havia organizado o "Colóquio Internacional Literatura e Diversidade Cultural: repensando a lusofonia", na PUCRS, evento que me levou feliz a Porto Alegre. Lá foi uma jovem mestranda apresentar-se a sua mestra e mostrar que estava trilhando um caminho parecido com o seu. Na ocasião, ela me mostrou feliz seu novo apartamento, sua biblioteca enquanto reclama dos óculos e do monitor, que agora precisava ser maior devido à dificuldade de visão. E me dizia: "Feliz de te ver aqui, guriazinha! Termina logo esse mestrado e vai fazer teu doutorado, hein? Nada de parar!" No dia seguinte, despedimo-nos com um abraço apertado, típico das Ritzel, e voltei para casa. Menos de um mês ela foi internada, falamos ao telefone e ela disse que "Não posso parar. Tenho muitos trabalhos para corrigir!", a própria figura de insubalternização, sempre a frente do seu tempo, até na doença. Pedi para que ela se cuidasse. Dias depois, recebo um telefonema do Walter dizendo que ela havia falecido, ou como bem nos lembra Mia Couto: encantou-se.

Recordarei sempre do encanto com que Tia Mana falava sobre a Literatura Portuguesa, não por acaso deixaste tantos órfãos do teu conhecimento, do teu colo e do teu abraço. Associações e congressos renderam homenagens a ti, mas acredito que a maior reverência acadêmica vem daqueles que tiveram a felicidade de terem sido teus alunos com quem incessantemente contribuíste para que se tornassem profissionais de excelência. Tia, obrigada por teres colocado em minhas mãos o romance Niketche, um romance de poligamia, de Paulina Chiziane, uma semente plantada em terreno fértil que me acompanhou no mestrado e no doutorado, digo, até hoje. Na qualidade de sobrinha "emprestada", agradeço imenso em nome de todos teus alunos. E te dizer que hoje sou eu quem ministra disciplina de narratologia e uso o livro "de capa rosa" que me indicaste do Carlos Reis. O teu O romance português contemporâneo anda sempre comigo, e é lido pelos meus alunos na disciplina de Literatura Portuguesa aqui, no Norte do Pará. Falar da Dra. Maria Luiza me exigiria embasamento teórico a altura, mas hoje minha memória afetiva fala mais alto e se encontra com a Tia Mana. Até breve.

"Maria Luiza, um coração vergiliano" - Gabriela Silva (Professora Adjunta/FURG)

Ingressei no mestrado da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul em 2007, tornei-me bolsista e passava muito tempo do meu dia entre a Faculdade de Letras e a Biblioteca Central. Cursava disciplinas e fazia meu trabalho entre tantas coisas. Tínhamos uma aula de Teoria da Literatura, cuja responsável era a Profa. Dra. Maria Luiza Ritzel Remédios. Era a disciplina da qual eu mais gostava. Para mim, a garota que sonhava em ser doutora em Teoria da Literatura, assistir aquela professora imensa a falar era absolutamente fantástico.

Eu ocupava o gabinete do meu orientador, Professor Luiz Antonio de Assis Brasil, bem ao lado da sala de Maria Luiza. Numa tarde de outono, começamos a conversar. A partir desse dia, todas as tardes tomávamos café juntas ou comíamos um sorvete. Todos os dias, passamos a nos abraçar e dar dois beijinhos. Comecei a acompanha-la até a sua casa. Após deixa-la sentada na sala de tevê, eu seguia para a minha casa. Por vezes, íamos ao salão de beleza juntas. Nunca senti a diferença de idade, 40 anos para ser mais exata. Não, éramos duas garotas a falar de amor, vida, desejos e literatura. Ela me falava de Lisboa, de quando tinha ido estudar em Portugal e me dizia que eu também deveria ir. Adorava ir à sua casa e ver a coleção de imagens de Santo Antônio, gosto que tomei emprestado há algum tempo.

Maria Luiza foi arguidora em minha banca de mestrado e foi a idealizadora da minha tese. Lembrava-me cotidianamente da minha lusitanidade, de que eu deveria mostrar ao mundo minha identidade de pesquisadora, de amante da literatura portuguesa. Foi ela que me mostrou Vergílio Ferreira e me fez pensar sobre tudo o que eu deveria aprender a respeito de José Saramago.

Lembro-me do dia em que ela me falou do autor de Aparição pela primeira vez. A frase dita foi: "Eu tenho um tanto de Alberto, o protagonista". E aos poucos ela foi me contando do livro e eu fui tomada por uma paixão sem tamanho pela obra. Já doutoranda, segui os passos da minha mestra e por sua indicação fiz o doutorado sandwich com a Professora Helena Buescu, que me aceitou justamente pelo contato de Maria Luiza. Poucos dias antes da sua morte, na noite de 17 de abril de 2012, eu telefonei para Malu, de Lisboa. Disse: "Olá linda menina, como estás?" Ela me respondeu: "Com saudades, Maricotinha, pensei que fosse morrer sem me despedir de ti". Minha mestra e amiga partiu no dia 5 de maio de 2012, mesmo dia em que voltei de Portugal, numa pesquisa que, generosamente e com tanto amor, ela havia me ajudado a desenvolver.

Maria Luiza era uma mestra no sentido mais perfeito da palavra, sabia compartilhar, ler, educar e, sobretudo, dava-nos a certeza de que tudo podia ser bom e dar certo. Exigia com a docilidade de uma mãe que fôssemos melhores, que educássemos nosso espírito, com conhecimento e elegância. Trazia em sua alma, gentil, como a descrita no poema de Camões, uma sabedoria imensa, uma alegria de quem é jovem o tempo todo, mesmo quando o corpo cansado pede o sono e o repouso.

Minha banca de doutorado foi melancólica, havia um vazio tão grande que nem todos os professores convidados poderiam suprir. Era o seu lugar, ali comigo. Hoje, penso que ela estaria orgulhosa por mim, por tudo que tenho feito, estudado e aprendido. Ficaria feliz ao saber que Saramago se tornou um grande amor e que Vergílio Ferreira é uma leitura constante e sempre única.

Eu queria ter ido a Lisboa com Maria Luiza, com certeza iríamos aos fados, caminharíamos pelo Chiado, visitaríamos a Casa Fernando Pessoa e a Fundação Saramago. Andaríamos a conversar e ela me diria que eu posso sempre mais e que eu tenho que escrever e publicar minhas ideias. Tenho um orgulho enorme de ter conhecido essa professora e amiga, que, do nada, mesmo sem ser minha orientadora, se tornou uma das melhores amigas que tive, me educou na Literatura Portuguesa e para ser uma professora. Que alegria era encontrá-la toda a semana, todos os dias, ouvir sua voz no telefone ou quando o elevador do prédio da Letras se abria, ouvi-la me dizer: "Ah, eu já ia te ligar!"

Tenho os livros da Maria Luiza comigo, são como um vestido, um aroma que não me sai da memória. Tenho nossas tardes de meninas, nossas discussões sobre tudo e uma saudade tão grande que não cabe no peito.